Enfim chegou o dia de sentir o céu. De ver as nuvens de perto. De atravessá-las como fazem as estrelas cadentes. Seria eu mais um feliz cadente no momento em que deixasse o avião. Não permiti que o sol me acordasse naquele dia. A adrenalina era tanta que eu mesmo o botei de pé. Rosto lavado, café tomado, dente escovado, me aprontei em um estalo. Alguns minutos de carro e lá estava eu no aeroporto dos Amarais, em Campinas. Como o desafio era enfrentar o medo, tive a ajuda dos gigantes celestes que acertam o clima. Tudo certinho. Céu de desenho infantil, vento de brisa, andorinhas animadas, só alegria. Aos poucos vi o pessoal trocar os trajes de passeio pelo macacão de voar. A indumentária lembrava um pouco a dos palhaços. Era bem larga, colorida e reforçada, com umas alças acolchoadas nos braços e pernas. Vi sorrisos acanhados aos poucos ganharem os ares celestes da gravidade que faz a gente feliz. Sorri também. Senti uma coragem diferente cochichar algo no meu ouvido. Meu anjo guardião, com certeza. Aquela manhã preguiçosa de sábado trazia uma missão diferente pra ele. Uns 40 minutos de espera e algumas dezenas de Pais Nossos e chegou a minha vez. Do instrutor recebi as coordenadas e procedimentos necessários para a aventura começar e terminar bem. Com tudo preso e apertado, orientado e certificado rumamos para a aeronave, um Cessna azul e prata tinindo de novo. Junto de mais 10 pára-quedistas, uns mais experientes e outros novatos como eu, senti a magia que é ganhar a altura das nuvens. Vi o chão ficando pequeno, senti o ar esfriando e a boca secando. É a adrenalina que nunca deixa a gente sozinho em horas como essa. Com pouco tempo de vôo, 14 mil pés já me separavam do chão. Porta aberta, vento tomando conta de tudo. Chega de narrar, menino! O protagonista agora é você! Abra os braços feliz e cumprimente o espaço dos anjos e das orações! Abri bem os olhos e me vi rodopiar. Sustentado apenas pela emoção, logo estabilizei braços e pernas, empurrados pelo vento a 200 quilômetros por hora. O ar faltava de tanto que tinha. Os segundos se passaram e, junto deles, um pequeno agrupamento de nuvens dava licença para eu passar. O som era alucinante. Zunia vigoroso. Reinava absoluto junto da paisagem verde, ainda mais bela vista daquela altura. O coração era só júbilo. Pára-quedas aberto e o urro do vento foi rapidamente substituído pelo silêncio. O momento era de contemplar. Os rodopios suaves me traziam vista 360º. E que vista eu tive de lá. Agradeci a Deus a oportunidade de vivenciar aquilo tudo. Agradeci a meu anjo guardião e a todos os benfeitores celestiais. Após navegar alguns doces minutos, o chão me recebeu novamente. Suave... O pensamento é que ainda não tinha se firmado. Ficou aéreo uns bons dias. Como é bom recordar... Um lugar naquele céu hoje me pertence. E breve hei de tomar posse dele novamente! De coração, olhos e pára-quedas bem abertos!foto: Rick Neves www.azuldovento.com.br







