O poodle preto parecia perdido. Ficou entre os carros, por sorte parados no sinal, sem saber para onde ir. Alguns até abriram a porta para o pequeno cão entrar, mas não. Ele seguiu, atordoado, até cruzar a pista à direita e avançar pelo canteiro gramado, ladeando um córrego estreito, em uma das principais avenidas da cidade. Eu larguei o carro na calçada e fui atrás dele. Em vão. Assustado que estava, correu, sumiu. Rapidamente voltei para o volante e tentei seguir o menino fujão. Infelizmente não o encontrei, mas encontrei um casal de andarilhos, sua carroça de madeira e seu cachorro, uma fêmea preta, pequena, parecida com um Basset, a Tequila. Estavam ali descansando sob a sombra de uma bela árvore, em uma pequena praça.
Curioso: o poodle perdido acabou me trazendo até eles.
Caminhavam sem destino desde o Rio de Janeiro, descobri. A Sandra tem dificuldade para se locomover, devido a uma doença que teve nas pernas. O marido, que vou chamar de Felipe porque não me recordo o nome direito, a ajuda a prosseguir viagem, levando-a dentro da carroça, junto da Tequila, a ração que ganharam semana passada, algumas panelas e um pequeno fogareiro. Conversei alguns minutos com eles. Soube das jornadas mais recentes, ouvi algumas histórias tristes, outras animadoras e esperançosas. Vi como lidam com seus problemas e me senti pequeno, pequeno, sofrendo por coisas menores ainda. Fiquei emocionado com aquelas pessoas simples, que enfrentavam suas mazelas com otimismo, companheirismo e fé em Deus. Corri à padaria e trouxe para eles alguns itens que poderiam ajudar a passar a noite melhor. Uns pães fresquinhos, frios, água para eles e para a Tequila, refrigerante (ele me pediu) e umas cervejinhas também. O Felipe ficou surpreso. Não imaginava que eu traria tanto, além dos R$10 que já havia dado logo de cara. Ele me cumprimentou umas 3 vezes, me deu um abraço. Chorou. Me abraçou de novo. Eu também tive que conter umas lágrimas. A Sandra, sentada, me agradeceu. A Tequila me agradeceu, lambendo e rolando no chão para eu brincar com ela. Brinquei, fiz ‘cosquinha’ na barriga. Tinham descolado uma marquise ali perto para passarem a noite e amanhã seguirão viagem. Me despedi, entrei no carro e parti para casa. Tinha uma alegria nova instalada no coração, e uma certa tristeza também. Preciso exercitar mais isso, pensei. Ajudar. Sair pela rua e auxiliar como puder. A vida faz sentido assim. Sem grandes questionamentos, sem filosofia complicada de entender e explicar, sem perguntas que só o tempo poderá responder. Vou rezar por eles. Vou pedir por eles e por mim. Para que encontrem mais caridade pelo caminho, e para que meu coração não desista de praticar, de se doar, de ajudar quem precisa de verdade. A vida faz sentido assim.