Mesmo descrente, o Jakcson resolveu ir até o terreiro. Foi de ônibus, logo que chegou do serviço, às sete e meia. Foram dois coletivos, quarenta cinco minutos de trajeto, mais sete quarteirões, do ponto onde desceu até a casinha amarela de tinta descascada. A casinha antiga, com velas brancas e azuis, depositadas à beira da soleira. A casinha de canteiros de barro na frente, lotados de flores pequenas, brancas e tão perfumadas quanto uma primavera inteira. Quando chegou, a celebração já havia começado. Os tambores soavam, e o piso, forrado de pétalas de rosa, até tremia um pouco. Deixou os sapatos ao lado da porta, junto das outras dezenas de pares, e entrou devagarzinho. O lugar era bem modesto, de chão batido, teto alto e todo de madeira, com as vigas aparecendo. Atrás de uma nevoa cheirosa de incenso, mulheres e homens dançavam em uma roda. De olhos fechados, cantavam letras firmes para Orixás que ele não conhecia. Pediam a presença de forças da natureza. Ao seu lado, as pessoas cantavam juntas, e acompanhavam a música batendo palmas com vigor e alegria. Tinha muitas crianças lá. E muita paz também.
Dois anos se passaram, desde aquela sexta. Hoje é segunda, é de madrugada, e o Jackson já saiu. Pegou a guia de contas azuis, trançou-a entre o tórax e o pescoço, e foi trabalhar.
Quinta-feira, Outubro 29, 2009
Terça-feira, Outubro 27, 2009
DORME BEM, VOVÓ!
Dona Gracinha era a vovó da Mariana, da Luisa e do Pedro, mas era também a vovó do prédio inteiro. Era vovó do Isaias, o porteiro, da Maria, da Jacira, da Ivonete e da Jocielma, as moças da limpeza, vovó do Seu Mário, o Síndico, vovó até do pessoal da TV a cabo, que vivia por lá instalando e fazendo manutenção. Dona Gracinha se despediu sem dizer adeus. Naquela noite de quinta, de primavera, de lua bonita e cheiro de chuva que acabou de cair, a doce vovó fez do jeitinho de sempre. Deixou a ração do Little, seu salsichinha, deitou-se, beijou a foto do Seu Nestor, e suavemente pegou no sono. Acordou devagarzinho, ao soar de violas e violinos, que tocavam especialmente para ela. Seu quarto tinha desaparecido, e, no seu lugar, viu apenas o sol, brilhando quase na altura do chão, uma grama verde bem fofa e delicadamente aparada, e um jardim sem fim, forrado de flores de todos os perfumes e cores. Foi recebida por uma comitiva de gente, que sorriu em conjunto ao vê-la acordar. Dona Gracinha fez sua passagem, e, a partir daquele dia, passou a proteger e dedicar seu amor generoso aos que aqui ficaram, de lá do céu. Ah. O Little está bem. Foi para a chácara do Marcos, neto mais velho, e, apesar de um pouco triste no começo, já está brincando outra vez.
Segunda-feira, Outubro 26, 2009
Meus pais foram artistas. Artistas mesmo, de gravar disco, de cantar samba e música lírica. Meu pai seguiu cantando, e minha mãe, mesmo proibida de cantar pelo meu avô, sempre brilhou como uma estrela de verdade. Meu irmão vive do violão que toca e ensina, e eu da poesia que faço. (Ainda que ela nasça de uma necessidade mercadológica, do plano de marketing de alguém de gravata, ainda que ganhe um número de ordem de serviço, que entre em uma planilha chata e cheia de termos técnicos em inglês, ainda que divida lugar com números, gráficos e tabelas em um PowerPoint, ainda que se torne um texto publicitário que estimule o consumo, incentive o trabalho de funcionários e o conseqüente ganho a mais do meu cliente, ainda assim, com tantos parênteses e poréns, para mim meu trabalho será sempre poesia).
Segunda-feira, Outubro 19, 2009
Sexta-feira, Outubro 16, 2009
UMA DE FUTEBOL
O jogador cobra o pênalti, mas o pênalti também cobra o jogador. Cobra antes, durante e, nos piores casos, depois.
Segunda-feira, Outubro 12, 2009
Sexta-feira, Outubro 09, 2009
UMA DECLARAÇÃO DE AMOR
O meu é diferente. Ele é magro também, tem a cara fininha e o rabo entre as pernas. E cada espichada que ele dá são uns 8 passos meus. E as manchas pelas costas parecem o mapa mundi - o Brasil fica bem na testa. E ele não pode ouvir a minha voz, que fica com a orelha em pé. E quando eu chego da escola ele corre pra cama achando que eu já vou dormir. E tem o nome que eu teria se nascesse menino: Igor. Eu brinco que ele parece mais com o ‘i’, porque é magro e porque tem uma pinta bem no meio da cabeça. Eu sou a Aline, e amo tanto o meu Whippet, que nem sei o que seria dos meus 8 anos, dos meus fins de semana, das minhas férias, e da minha infância inteira sem ele.
Quinta-feira, Outubro 08, 2009
VELHOS AMIGOS
Lá vai o vovozinho descendo as escadas do primeiro andar, no prédio cor de abóbora onde mora desde a década de 30. Lá vai ele passear na praça em frente, a praça bonita dos ipês amarelos. Ele pega o chapéu, a bengalinha de madeira, calça as sandálias de couro velho, chama o Nestor e vão os dois. Lá fora brilha um sol brando. É outono, e o dia está ameno, bem gostoso. A praça, que fica no fim de uma estreita vilinha, foi revigorada recentemente pela prefeitura, em parceria com uma grande empresa de engenharia, que fica por lá também. Os bancos foram restaurados, a guia repintada, o tanque de areia recebeu brinquedos novos, as árvores centenárias ganharam novas vizinhas, arbustinhos, mudas de árvores frutíferas, palmeiras imperiais e outras, que dão flores alternadamente, o que, em breve, deixará a velha praça florida o ano inteiro. O Nestor adora a praça. Adora os troncos caídos. Adora os motoqueiros, que passam sempre com pressa. E adora os pombos. Especialmente quando eles se amontoam sobre o milho que o vovô esparrama. É todo o dia assim, e todo o dia eu acho graça. Fico rindo sozinho, enquanto observo da janela a amizade dos dois. Quero ficar um velhinho disposto assim, como o vovô é. Mas feliz mesmo eu ficarei se tiver um amigo como o Nestor por perto.
Quarta-feira, Outubro 07, 2009
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